A diversidade humana é, há tempos, discutida por filósofos da humanidade. Entretanto, todas as discussões que existiram sobre “raças” humanas envolvem apenas o nível fenotípico, de aparências.
A variabilidade fenotípica é vista em várias etnias diferentes, assim como há variabilidade populacional em outras espécies por compartilharem ambientes diferentes e por um relativo isolamento reprodutivo geográfico, que faz com que cada população tenha sua própria característica.
No entanto, quando analisamos as populações humanas a nível genômico, a diferenciação não é tão simples assim. A variabilidade genética da nossa espécie é muito baixa. As características físicas desses grupos representam adaptações ao meio ambiente, sendo então produtos de uma seleção natural que age sobre alguns poucos genes. Variações fenotípicas visíveis, tais como cor da pele, cor dos olhos, forma do nariz, etc, são regidas por pouquíssimos genes quando comparadas com variações moleculares de “maior” importância. A anemia facilforme, por exemplo, era vista como uma doença típica de africanos ou afro-descendentes. Um estudo realizado recentemente na UFMG (link) constatou que a 15% dos casos no estado de Minas Gerais é formada por indivíduos com 85% de ancestralidade européia.
Quando queremos distinguir um europeu de um africano, p. ex., podemos conseguir com êxito quando estamos analisando os dois indivíduos fenotipicamente. Apesar disso, quando analisamos apenas o nível genômico (como o exame de um DNA forense, por exemplo), a facilidade de identificação desaparece completamente.
O ponto crucial para abolirmos completamente o termo “raças” quando nos referimos à nossa espécie é a avaliação das diferenças individuais. Vários estudos constataram porcentagens de polimorfismos individuais e entre “raças” de seres humanos e os resultados sempre foram próximos a:
· 85% de diversidade entre indivíduos de mesma população;
· 8,3% de diversidade entre populações diferentes;
· 6,3% entre “raças” distintas.
Portanto, como podemos definir “raças” se a variação genética é de apenas 6,3%? Compare com a variação individual de 85% e podemos compreender o motivo do erro cometido.
No Brasil, a situação á ainda um pouco mais complicada. Todos os estudos de miscigenação já realizados confirmam que a população, independente da região onde se encontra, possui ancestralidade africana, européia e ameríndia, diferindo apenas na porcentagem entre elas. A variabilidade genética da população brasileira é gigantesca. Todos nós somos afro-descendentes, euro-descendentes e ameríndio-descendentes.
Do ponto de vista genético e biológico, então, raças humanas são indiscutivelmente inexistentes. Talvez o termo tenha um significado cultural e político, mas também acaba por cair em alguns preconceitos e não é bem visto por grande parte da população.
Este ano tivemos nossas casas visitadas por trabalhadores do IBGE para realizarem o censo de 2010. Uma das perguntas que eles fazem e que várias pessoas não souberam responder foi “como você define sua cor?”.
Em uma palestra no 56º Congresso Brasileiro de genética, o Dr. Guilherme Suarez-Kurtz fez uma grande ressalva quanto a isso, comentando que cor é uma característica de variação contínua e muitas vezes não diz muito sobre a ancestralidade do indivíduo. Ele chegou a mostrar e cantar uma música feita sobre o censo do IBGE (uma crítica) que particularmente achei muito interessante, e diz muito sobre nossa população:
GRES ACADÊMICOS DO IBGE
Esplendor e Glória de um Mameluco Cafuzo na Corte do Censo
De João Pimentel, Marceu Vieira e Arnaldo Bloch
Hoje o Censo bateu
na porta da minha casa
perguntou a minha idade,
minha renda, minha prosa
meu grau de escolaridade
meu sexo, minha glosa
Brasileiro sei que sou,
carioca classe média
trabalho quase de graça
pra tomar a minha média
Mas um fato me encucou
Qual é a minha raça?
maluco, tou maluco
eu não sei quem sou na praça
Sou mameluco , sou cafuzo?
Negro de keto ou nagô?
Amarelo, pardo, índio,
minha cor qual é que é?
Judeu, ateu, ET
Cristo, buda, oxumaré
Qual é a minha tribo
Responde, IBGE!
Preciso
de um geneticista russo
Preciso
de uma enfereira
que me tome o pulso
preciso
de um cientista americano
e de um pai de santo
carioca ou baiano
para saber quem sou
nessa aquarela
a vantagem que vou ter
se for preto ou balela
se sou um homem sério
tenho cota pra banguela
ou picareta branco,
sem nome, sem donzela
Descendente de Zumbi,
Conselheiro, ou Arariboia?
Meu pai me disse "Aí:
eu já estou na paranoia
Dom Pedro ‘Alves’ Cabral
Virgulino, Tiradentes?
com seu pé lá da cozinha,
mamãe jura que é inocente!
Quem eu sou? (breque)
Quem eu sou?
Negro arara, branco ou vira-lata?
Quem eu sou?
Feijão manteiga ou chocolate de nata?
Quem eu sou?
Cabelo enrolado de nariz virado...
Quem eu sou?
Um branco pardo qualquer
ou um preto desbotado?
Diz aí como é que éééé...
minha cor, IBGE?!
Diz aí como é que éééé...
meu nariz, IBGE?!
Diz aí como é que éééé...
Meu cabelo, IBGE?
Diz aí como é que éééé...
Quem eu sou, IBGE?
Diz aí como é que éééé...
Quem eu sou, IBGE?
na porta da minha casa
perguntou a minha idade,
minha renda, minha prosa
meu grau de escolaridade
meu sexo, minha glosa
Brasileiro sei que sou,
carioca classe média
trabalho quase de graça
pra tomar a minha média
Mas um fato me encucou
Qual é a minha raça?
maluco, tou maluco
eu não sei quem sou na praça
Sou mameluco , sou cafuzo?
Negro de keto ou nagô?
Amarelo, pardo, índio,
minha cor qual é que é?
Judeu, ateu, ET
Cristo, buda, oxumaré
Qual é a minha tribo
Responde, IBGE!
Preciso
de um geneticista russo
Preciso
de uma enfereira
que me tome o pulso
preciso
de um cientista americano
e de um pai de santo
carioca ou baiano
para saber quem sou
nessa aquarela
a vantagem que vou ter
se for preto ou balela
se sou um homem sério
tenho cota pra banguela
ou picareta branco,
sem nome, sem donzela
Descendente de Zumbi,
Conselheiro, ou Arariboia?
Meu pai me disse "Aí:
eu já estou na paranoia
Dom Pedro ‘Alves’ Cabral
Virgulino, Tiradentes?
com seu pé lá da cozinha,
mamãe jura que é inocente!
Quem eu sou? (breque)
Quem eu sou?
Negro arara, branco ou vira-lata?
Quem eu sou?
Feijão manteiga ou chocolate de nata?
Quem eu sou?
Cabelo enrolado de nariz virado...
Quem eu sou?
Um branco pardo qualquer
ou um preto desbotado?
Diz aí como é que éééé...
minha cor, IBGE?!
Diz aí como é que éééé...
meu nariz, IBGE?!
Diz aí como é que éééé...
Meu cabelo, IBGE?
Diz aí como é que éééé...
Quem eu sou, IBGE?
Diz aí como é que éééé...
Quem eu sou, IBGE?
Se quisermos dividir a espécie humana em raças, o mínimo que podemos dividir é em 6,5 bilhões de indivíduos.
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Fonte principal: PENA, Sérgio Danilo. À flor da pele: Reflexões de um geneticista. Rio de Janeiro, Editora Vieira & Lent, 2007.










